' Escravidão e BDSM - DIÁRIO DE UM DOMINADOR - GLADIUS | BDSM, Fetiches e Relacionamentos

Escravidão e BDSM


 

Publicado em 12/10/2008 -

NOTA DO AUTOR >>> A palavra “escravidão” realmente traz no seu bojo um peso pejorativo difícil de se ignorar, tanto que acabei tendo que ir fundo para estabelecer de forma clara que, quando usada dentro do BDSM dentro de contextos bem definidos, não tem o objetivo de ser ofensiva. 

Existem outros termos que, emprestados ou não, terminam servindo como rótulos e como já tinha feito com a palavra Bondage, lancei mão aqui do recurso de usar o dicionário como ponto de partida na fundamentação dos meus posts.

Aqui eu tinha uma visão até simplória da coisa toda e não tinha ainda consolidado a visão que tenho hoje do comportamento de “escravo”, junto o comportamento “servo”, como uma subcategoria da submissão, que diferem entre si basicamente no seguinte: enquanto o segundo (servo) se submete docilmente, o primeiro (escravo) precisa sentir fisicamente a dominação.


Escravidão e BDSM

Existe uma velha amiga muito interessada em aprender sobre BDSM, com que tenho debates maravilhosos sobre temas diversos. Um dos temas em especial, foi muito difícil de entender para ela, a escravidão.

Ela travou no significado literal da palavra e não se conformou com o fato de um termo tão pesado ser usado de forma tão natural e simplesmente não consegui fazê-la entender. 

Ela afirmava que de fato a palavra ao longo da história não traz nenhuma referência boa, que nenhum escravo era escravo porque queria e sim por ser obrigado.

Aí eu argumentei em duas direções. 

Falei que por um lado, essa era uma palavra que já tinha outros usos além desse que ela colocava e que hoje em dia, até pelo fato de escravidão real ser uma coisa assim tão afastada da nossa realidade, seu significado se estendeu e acabou sendo amenizado em algumas formas. 

Por outro, como é comum na língua portuguesa, o Universo BDSM pegou emprestada essa palavra, assim como outras (Mestre, Mentor etc.), para descrever uma situação muito particular em termos de comportamento.

Antes de dar sequência a esse texto, fui ao dicionário checar se todo o significado que essa palavra tinha era assim mesmo ruim.

E no Dicionário:

Escravo
adjetivo substantivo masculino
1. Que ou aquele que, privado da liberdade, está submetido à vontade absoluta de um senhor, a quem pertence como propriedade
2. Derivação: por extensão de sentido.
que ou quem está submetido à vontade de outrem, a alguma espécie de poder ou a uma força incontrolável
3. Derivação: sentido figurado.
que ou aquele que trabalha como serviçal; criado, servo
4. Derivação: sentido figurado.
diz-se de ou amante extremamente dedicado ou amigo fiel
5. Derivação: sentido figurado.
que ou aquele que trabalha em excesso, que vive para o trabalho
■ adjetivo
6. que é próprio de escravo, de pessoa inteiramente submissa a um poder ou a um senhor

(Adorei a do amante extremamente dedicado)

E foi nas derivações para o termo escravo eu encontrei a base para este “passeio” na direção do melhor significado para esse termo dentro do Universo BDSM, que além de não ter nada de ruim, apenas rotula um tipo de comportamento e um dos tipos de pessoas.

No BDSM é assim, um universo onde pessoas se completam dominando pessoas que se completam se submetendo e que se diferencia dos outros pelo simples fato de que entre os parceiros existe uma relação de poder. 

Um lado é superior ao outro, não porque é melhor ou mais forte. A superioridade de que falo é apenas hierárquica.

Acho que nessa região dos “submissos” não é bem uma questão de ser e sim de estar. Pois acredito que o comportamento deste depende da pessoa que ele interage. 

Sim, existem os completamente submissos. Mas mesmo esses esboçam algum tipo de “rebeldia” intencional em algum momento do processo. O submisso então pode ser levado a um comportamento totalmente submisso pelo seu Top. 

Pode ainda manter a rebeldia e desfrutar do prazer de ser tangido e posto de joelhos. 

E ainda pode aflorar o Switcher (indivíduo que se completa tanto dominando quando se submetendo, dependendo do parceiro), que vai dominar a relação se o parceiro não for forte o suficiente.

NOTA DO AUTOR
Aqui é onde comecei a perceber o comportamento peculiar dos submissos de maior peso intelecto-cultural, que mantinham uma certa pressão sobre o seu parceiro dominante so sentido de testá-lo em sua qualidade de forma contínua.

Assim como os Dominantes têm seus estados particulares dependendo do “que” e do “com quem” ele está fazendo, e são esses, Dominador, Sádico, Daddy Dom, Treinador, Rigger, Domador etc, os submissos também... São escravas, submissas, cadelas, éguas etc. Sempre dependendo do tipo de interação que tem com os Donos. 

NOTA DO AUTOR
Penso agora que Dominador e submisso são super categorias, ou seja, são rótulos que devem (ou pelo menos deveriam em minha opinião) ser reservados apenas para aqueles que jogam em todas as posições do “campo” do BDSM, sendo todas as outras (Top e bottom), sub categorias que definem os praticantes de BDSM que atuam em áreas específicas.

Esses rótulos também se fixam de acordo com a predominância das atividades.
Um Top especializado em Petplay vai sempre se referir às suas parceiras submissas como cadelas e ao grupo como canil, já um que se relacione com escravas pode se referir ao grupo como senzala e por aí vai.
No fim valem as regras do dominante e ele chama as suas parceiras como quiser.
A conexão entre Dominante e submisso e o que a forma, rende uma matéria inteira, então vou concluir centrando o foco no termo em si mesmo e concluindo, escravo não é um rótulo e sim um estado e assim como todos os outros são é uma descrição adequada apenas ao “ser”, mas também ao estar.


GLADIUS MAXIMUS




► Escravidão








Escravidão e BDSM Escravidão e BDSM Reviewed by Gladius on abril 25, 2021 Rating: 5

6 comentários:

  1. link ao artigo no meu blog... gostei de ler

    abraços

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  2. Belo texto, muito bem elaborado
    Argumentações inrrefutáveis.


    (E concluindo, escravo não é um rótulo e sim um estado. Não é uma descrição adequada ao ser e sim ao estar)


    Meus espeitos Sr..

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  3. Esse é meu primeiro comentário em seu Blog.
    Gosto de ler o que você escreve, mas esse post em especial me agradou bastante.
    Pareceu-me uma ótima ideia usar o dicionário para explicar o termo dentro do universo BDSM, eu particularmente simpatizei com a segunda definição apresentada.
    " Um que se relacione com escravas pode se referir ao grupo como senzala, ou no meu caso como harém (não consigo relacionar minhas escravas com objetos de baixo valor, gosto de princesas capturadas e não de serviçais)." Juro que ao ler isso pensei "que fofo", esse comentário aliado a alguns outros que vi em outros posts me levam a vê-lo como um Mestre (é o que vc é? ainda não estou habituada as denominações de Tops e bottoms) altamente afeiçoado a suas escravas.
    Ontem eu li um post, não me lembro do título mas falava sobre rompimentos,e nele o senhor falava sobre um elo por quem tinha grande afeição, me pergunto se o que o senhor chama de afeição não é o equivalente a amor no universo baunilha.
    Espero que não se ofenda com a minha comparação, é que sempre achei que as pessoas atribuem um valor utópico a palavra "amor" e tenho a impressão que Dominadores são reticentes a essa palavra, à palavra e não ao sentimento em si, em uma relação em que tudo é extremo me parece praticamente impossível que não haja afeição mútua entre as partes. E pra mim uma afeição nesse grau é o mesmo que amor.
    Alguma vez você já pensou a respeito disso? Pelo que estou conhecendo de você através de seus posts ousaria dizer que você ama suas posses. Afinal se chamarmos uma rosa por outro nome ela não será menos bela nem sofrerá alteração em seu perfume...

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  4. Fico feliz pelos elogios e quanto a questão específica em relação ao amor, chamo de amor a maior laço dentro do mundo baunilha de relações afetivas.

    No Universo BDSM ocorre algo que eu chamo de Elo BDSM. Um sentimento que amor mais paixão... e mais.

    Esse "mais" se refere a confiança total e entrega incondicional num tipo de relação onde a verdade reina de tal forma que os sentimentos ocorrem em fluxo... sem limites.

    Onde as partes vão muito além de uma simples parceria e se tornam parte umas das outras.

    Algo muito difícil de se explicar, mas muito bom de se viver.

    Se amo as minhas posses? Não... amor é pouco... elas são parte de mim.

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  5. Texto sensacional!
    Flores

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    1. Feliz por ter gostado Mirah... bom ver por aqui uma das minhas mais antigas leitoras. :)

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