' VINTE E QUATRO POR SETE - DIÁRIO DE UM DOMINADOR - GLADIUS | BDSM, Fetiches e Relacionamentos

VINTE E QUATRO POR SETE


Publicado em 26/03/2008

NOTA DO AUTOR
O 24/7 até hoje simboliza a relação mais importante dentro do Universo BDSM, se comparando em importância com o casamento, obviamente sendo guardadas as devidas proporções. E é tão emblemática que é dela que deriva a data de comemoração anual do dia internacional do BDSM em 24 de julho.
Em 2008 já tinha passados várias relações, mas apenas uma na qual a parte que se submete dividiu o mesmo teto comigo, o que não me permitiu na época ter uma perspectiva completa do que é de fato esse tipo de relação.
Eram tempos em que não havia a visão de minha parte de que a vida é uma grande coisa só, consequentemente não tinha como estabelecer com clareza a ligação entre 24/7 e parceria de vida.
Depois disso, vivi essa mistura com pessoas diferentes e em vários níveis de profundidade, chegando hoje à utopia que tanto busquei, que é a de viver dentro do universo das relações com jogos de poder todo o tempo e na maior parte dos aspectos da minha vida.

Se tem uma coisa que não falta no BDSM são temas polêmicos e este é um dos mais quentes, perdendo apenas para irmãs de coleira, ciúme, poligamia e “switcherismo” (será que só tem polêmica no BDSM?).

Infelizmente o que mais se vê são pessoas falando sobre o que não conhecem e pior, como não conhecem acham que vivem isso. 

Vou tecer algumas considerações tentando simplificar na medida do possível este tema complexo.

Desde que comecei a brincar universo BDSM, ouço falar no termo 24/7 e nos seus mais variados significados. Sempre achei que fosse uma lenda, ou melhor, uma utopia, visto que é uma situação bem pouco prática de se sustentar.

Então vamos por partes.

O que é 24/7

Na ponta do lápis, 24/7 é uma relação em que um dominante tem uma ou mais pessoas submissas o servindo, 24 horas por dia 7 dias por semana... e ponto. Mas é só isso? Se sim, é possível? Se não, o que resta?

Se a ideia é buscar o significado de 24/7 de modo literal, aparte que se submete não teria vida própria, não teria objetivo outro senão agradar e servir a seu Dono, não teria nada seu, não decidiria nada e nem sairia da casa. 

E, dependendo do estilo do seu “proprietário”, nem a necessidade de falar o escravo teria, podendo manifestar suas necessidades mais básicas apenas de forma escrita.

Já ouvi relatos interessantes. Um amigo que mora na Espanha e é um adepto do Pony Play me disse que não é raro mulheres vivendo em 24/7 real como pony girls, morando em estábulos e vivendo sua vida como éguas. 

E mais, algumas chegam ao limite de fazer uma cirurgia na língua pois uma pony girl quando incorpora o papel não fala e nem usa os braços. Mas isso é na Europa, e num circuito fechado formado por pessoas alto nível de cultura, inteligência e poder aquisitivo. 

Acredito que, por uma questão de probabilidades, em algum lugar deste planeta alguém se predisponha de forma consciente e voluntária a entregar a sua vida de completamente a outra pessoa disposta a aceitar essa condição. 

Em todos os meus anos de existência nunca vi nada nem parecido com isso. Realmente uma situação rara, mas não impossível. 

E o que resta?

Para nós, pobres mortais sobra apenas chegar o mais próximo possível da utopia, o que nos leva a mais uma questão.

Quais são as condições para que possamos considerar uma relação BDSM como 24/7?

E essa é a mais fácil de responder. Os ingredientes:

Relação de Dominação/submissão
+
Disponibilidade real de 24 horas por dia e 7 dias por semana da parte que se submete para a que domina.
=
Relacionamento 24/7

Aí a vida real fala mais alto e só vamos encontrar isso em um tipo de relação que vai aparentar uma relação estável para as pessoas de fora do BDSM, que é o tal morar junto e ser parceiro de vida.

Sim, é no casamento (ou relação marital) que mora a condição essencial para a relação 24/7 e não consigo enxergar outro caso em que a aproximação ao 24/7 literal seja maior ou no mínimo próxima. 

NOTA DO AUTOR
Os tempos eram outros e os tipo de relacionamento que tinha tido e presenciado limitavam a minha visão. Não muda hoje em dia que o “morar junto” somada com uma “parceira de vida” são a base de uma relação 24/7 funcional, mas tempo e experiência me mostrariam que as coisas não são tão simples assim.

Essa com condição se dá em duas direções, ocorrendo quando parceiros de vida já com uma relação estável instaurada descobrem juntos ou um pelo outro o Universo BDSM e em comum acordo migram para a relação D/s ou quando uma parceria se forma dentro do BDSM e daí é estendida para outras regiões da vida dos participantes.

Uma coisa todos os casos têm em comum, o jogo é aberto e todas as cartas ficam a mostra na mesa. Ninguém engana ninguém e tudo é feito e vivido com intensidade e pelos motivos certos.

É importante destacar que não estou dizendo que quem vive 24/7 vive uma afetividade hibrida. 

O que ocorre é que a relação BDSM por ser naturalmente de alcova, termina sendo de certa forma camuflada e passa praticamente despercebida para as pessoas do círculo de relações dos participantes que não são BDSM.

Seguindo essa lógica, todo dominante com uma relação estável já tem uma relação 24/7 com a parte que se submete e se tendo outras parcerias, a relação não é 24/7. 

Isso fecha o círculo e encerra a questão... será?

Já falamos do extremo utópico, em que a parte que se submete literalmente entrega a sua vida nas mão do parceiro, ficando totalmente disponível tanto de forma física quando afetiva.

Aí passamos pela realidade (que também utópica para muitos) em que as partes moram juntas, mas não ficam todo o tempo juntas. Aqui existe um 24/7, mas nem tanto, pois uma das partes e as vezes as duas trabalham para a manutenção do seu estilo de vida.

Então seguindo esta lógica do possível, esta relação 24/7 descrita por último difere da primeira e extrema justamente por ter seu âmbito restrito a disponibilidade afetiva e se colocando eu uma posição mais próxima da viabilidade.

Pensando na questão do número de participantes versus o fator viabilidade, fica difícil pensar em mais de duas pessoas dentro de uma relação em que o morar junto é um fator necessário. Conheço casos em que isso acontece, mas não em uma quantidade representativa (1 caso e não durou mais do que alguns meses).

A alternativa do 24/7 afetivo

Se continuamos na direção de que é o foco na afetividade e disponibilidade afetiva que vale, então seria factível se chamar de 24/7 também a relação em que as pessoas não morem juntas, mas que as partes não tenham relações afetivas fora do BDSM.

Como atualmente é comum se ver parceiros de vida com relações convencionais dividindo tudo na vida, menos o teto e isso se consolida com comprometimento para com essa parceria. E se 24/7 tem a ver com comprometimento e parceria, apesar de que essa ideia não é de consenso, me parece bem lógico que basta isso entre as partes para que uma relação possa ser chamada de 24/7.

E como fica quando existe comprometimento e parceria, mas a relação é puramente virtual?

A relação virtual BDSM existe na medida que na prática, quando uma pessoa manda e o outra obedece, isso é real e bem palpável. O que não é palpável é o corpo de parte pela outra.

Também sendo um tema controverso, em minha opinião a relação BDSM virtual sempre será limitada ao estágio inicial onde as pessoas se conhecem, sendo que para que suba para um estágio mais sério, há a necessidade do contato real.

Me baseio nisso pelo fato de que para que existam condições mínimas para que uma relação de comprometimento e parceria se forme, as pessoas têm que ter contato físico, ou seja e sendo bem direto, mesmo que de forma periódica, os parceiros têm que ser de alguma forma palpáveis um para o outro.

Minha experiência 

Vivi o 24/7 com a disponibilidade relativa e possível que que é aquela que vem depois de prioridades que vem antes da alcova, como saúde, filhos, família, profissão, educação e tudo mais que possa afetar o ser humano que tenta viver a sua natureza dominante ou submissa do jeito que puder.

O fato é que não tenho a completa disponibilidade e perco a preferência rapidamente quando a cria de uma parceira tem uma dor de barriga. Mas que tipo de energúmeno seria eu se furasse essa fila na vida de uma parceira?

Mas será que o que vivo (e vivi) é 24/7? 

Sou uma criatura que apesar de se dar muito bem com a solidão tem a preferência de ter gente por perto, mas não qualquer “gente”.

Passei um único período sem ter relações mais profundas, que coincidiu com o final da minha primeira relação 24/7 em 1999 e a minha chegada e aclimatação no meio BDSM de São Paulo entre 2002 e 2006. 

Depois disso tive várias relações que, morando junto ou não, eram claramente 24/7, pois havia sempre um comprometimento com a exclusividade afetiva das partes que se submetiam em relação a mim mantendo a sensação dessa utopia sempre presente.

Logo creio que vivi (e vivo) o instituto do 24/7, mas com realidade fazendo com que esses valores variem sejam determinados pelos fatores externos já citados acima.

24/7 de verdade é difícil de encontrar até porque também é difícil de entender e só quem vive isso sabe do que eu estou falando. E pelo que percebo, a maioria busca dizer que vive ou viveu 24/7 apenas porque conta pontos. 

Mas o que conta ponto de verdade é apenas viver BDSM... do jeito que for... do jeito que der... e que a vida real é BDSM sendo vivido em um X/Y sendo X e Y são maiores do que zero.

NOTA DO AUTOR
O tempo e a maturidade me fizeram ir na direção do aprofundamento nas minhas relações, me fazendo ser bem mais criterioso na escolha da parceria ideal, tanto nas afinidades quando nas expectativas mútuas. Vivo algo que chamo de 24/7 2.0 em que, além de ter uma pessoa vivendo comigo e para mim o tempo todo, pois desenvolvo todas as minhas atividades profissionais em casa. Isso é algo que não faz com que essa relação seja melhor ou pior que as outras, diferindo apenas na questão da manutenção que é bem mais trabalhosa para os participantes.

GLADIUS MAXIMUS


VINTE E QUATRO POR SETE VINTE E QUATRO POR SETE Reviewed by Gladius on abril 25, 2021 Rating: 5

10 comentários:

  1. Anônimo23.4.08

    Hummmm Bela aula amei,abraços

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  2. É muito interessante esse post...
    gostei mesmo...

    E nem sabia que o Sr GM tinha blog, veja só!

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  3. Fico envaidecido pelos elogios e feliz pela visita.

    G.M.

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  4. estou a revirar seu blog novamente rs gosto dos textos que o Sr escreve, esse de 2008 também é ótimo, adorei

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  5. Anônimo26.12.11

    gostei do texto.

    mas eu queria saber sobre aquela história do ponygirl que o seu amigo da Espanha contou. isso é real mesmo? poderia contar em detalhes? elas realmente vivem o tempo todo como pôneis? não falam nem andam em pé? daí o dono dá banho nelas e escova os dentes delas? e como elas vão ao banheiro? fazem ao ar livre? como isso funciona na prática no dia a dia? elas somente obedecem as ordens sem contestar como meros objetos ou animais de estimação?

    pergunto isso porque às vezes parece que "cada conto aumenta um ponto" e pode ser que seu amigo tenha lhe informado incorretamente. Fiquei muito interessado nisso, pois gosto muito do 24/7, mas às vezes ele parece impossível na prática.

    obrigado e parabéns pelo site!

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    1. Vou pensar nisso como assunto para um post.

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  6. Ahhhhhhh, entendi... :)

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  7. Sofia29.5.14

    Discordo com o 24/7 totalmente acho no seculo de hoje isto ser mais um típico dos muçulmanos que BDSM estou aprender ainda mas como Dona não conseguiria ver um submisso comigo 24/7...Numa relação para mim isto é e so Fantasia entre 4paredes e ai sim a Dona não falha poderá so ter as vz benevolência...mas Respeito

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  8. oi,gostei muito do texto,sou uma escrava doogplay,somente na presença de meu DONO.não moramos juntos mais mesmo assim td q faço ou onde irei tenho que pedir autorização de meu SENHOR primeiro.me considero escrava 24/7 porq uso cadeado de castidade e as chaves pertencem ao meu DONO,o sirvo de corpo e alma

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    1. Acho que essa é uma boa visão do que é ser 24/7 e que isso é algo ocorre dentro da cabeça e num campo gravitacional restrito aos que estão dentro dele.

      Uma criatura que pertence a outra de fato não precisa de umas letrinhas no nome ou um adorno no pescoço... precisa apenas de atitude.

      Com a atitude correta nunca vai existi qualquer dúvida de a quem a posse pertence.

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