Natureza, quando ela fala mais alto...


Gostaria de questioná-lo a respeito do papel do submisso. Tenho medo, receio, pavor, do que é ser submissa realmente... Compreende uma entrega plena de quem se é, e apenas esse poder cabe ao mesmo. A muito reluto em me entregar a esse papel, sou reticente, mas diria que atualmente eu sobrevivo no limbo. Se me perguntasse, você gostaria de ser submissa? Eu responderia que não, pois não me considero digna o suficiente, talvez forte, e tenho receio de macular os que tão bem abraçam esse seu lado. Ultimamente devido a fenômenos literários muitos se dizem submissos e Senhores colocam como se tudo fosse simples e fácil, cercado por um arco-íris. Talvez até seja e eu não consiga perceber. Acredito que precise abraçar a dor e os prazeres que a submissão possa me trazer.  Mas meu principal questionamento é como eu continuo a viver depois de conhecer algo tão sublime? Sei que as relações se desfazem, mas como um submisso (a) consegue viver sem um Dono, sem seu Dono?

Aqui falamos de um sentimento já muito conhecido do ser humano. Aquele que vem quando queremos ou nos sentimos prontos para algo e um fator externo qualquer nos impede de atingir esse objetivo: a frustração.

Nos sentimos frustrados por vários motivos e isso começa muito cedo nas nossas vidas. Desde a mais tenra idade, invejamos aquele coleguinha aparece com um brinquedo novo... então, pedimos um brinquedo igual para os nossos pais e estes por motivos que nunca entendemos... não nos dão.

É essa frustração que em grande medida nos mostra também que não estamos vivendo a vida que gostaríamos de viver e invariavelmente, nos estimula a buscar por novos horizontes... A frustração, quando não é bem trabalhada, termina em inveja daquele que consegue o que quer.

O natural é que tracemos uma estratégia de ação na qual estabelecemos o que queremos e o caminho para atingi-lo. E enquanto não conseguimos, nos "viramos" com o que temos.

Na questão específica da natureza de submisso ou Dominante, o que devemos fazer termina não sendo muito diferente. Se queremos realmente viver a nossa natureza, em primeiro lugar, devemos estabelecer o que de fato nos alimenta. Em segundo, traçar uma estratégia para atingir esse patamar.

Um leão não deixa de ser leão pelo fato de estar preso numa jaula. Ele se completa "estando leão", quando vive na savana africana, protegendo o seu clã. O mesmo ocorre com a nossa natureza Dominante ou submissa, quando estamos "presos". 

Eu não deixo de ser Dominador quando e enquanto estou sem posses para me servir. Também entendo que um submisso não deixe de ser submisso pelo fato de não ter um Soberano para servir. Até porque a natureza sempre fala mais alto.

Podemos varrer para debaixo do tapete todos os aspectos da nossa natureza ou algo que realmente queremos, ignorando ou suprimindo... Mas isso normalmente funciona por pouco tempo, pois a natureza emerge e o "calombo do tapete" vai ficando cada vez mais evidente. 

Vamos desviando dele na medida do possível, mas começamos a tropeçar nesse "calombo" nas tentativas de contorná-lo. Mais cedo ou mais tarde, não poderemos evitá-lo. Neste ponto, temos que tomar a decisão de encarar e resolver o problema ou de conviver com essa imensa frustração.

Esse é o ponto do limbo da transição... quando sabemos que não nos encaixamos numa determinada realidade, mas não temos a coragem ou as condições necessárias para mudá-la.

Há muito tempo atrás, uma velha amiga Switcher colocou esse assunto em uma nova perspectiva, quando a convidei para uma reunião fechada que estava organizando. Ela disse: "Estou sem Dono, algum problema de que eu vá sob sua proteção e sirva no geral como garçonete ou a quem eu venha escolher no momento?"

Eu estava bem no começo da minha caminhada dentro do meio BDSM e aquela era uma situação inusitada... Sabendo da sua condição de Switcher, na hora do convite imaginei que iria com o seu lado Dominante aflorado, uma vez que estava sem Dono. Acontece que era justamente o seu lado submisso que estava carente... e era nele que queria se encontrar naquele evento. 

Respondi que não via problema algum nisso e que poderia comparecer como submissa sob a minha proteção. Mas curioso sobre o inusitado posicionamento dela, quis saber sobre suas razões. Na época, ainda não tinha a experiência e a visão que tenho hoje e sua resposta me ajudou a entender um pouco mais sobre a natureza humana: 

"Se tenho vontade de servir, não tenho motivo algum para deixar de viver isso só pelo fato de não ter um Dono... e se é isso que tem pra hoje... é disso que vou me alimentar."

Essas palavras soaram como uma bela equação matemática, complexa e resolvida... É uma lógica avassaladora. Se estou com fome e com vontade de comer algo em específico, não deixo de me alimentar pela falta do que eu quero no momento, simplesmente porque o meu instinto de autopreservação fala mais alto.

E fala tão mais alto que depois de um tempo sem comer, passamos a colocar opções no cardápio que seriam inimagináveis em uma situação normal... como jiló e agrião, no meu caso.

No caso de pessoas normais e saudáveis, quando querem atingir um belo orgasmo, estas não suprimem a vontade por não terem um parceiro fixo. Nessa hora, vale o pau amigo, a prostituta, o "gogo boy" e na maioria dos casos, nossa boa e velha mão... com ou sem brinquedos e acessórios. Como dizia outra amiga: "É melhor um orgasmo ruim do que nenhum orgasmo".

No fim, a natureza sempre fala mais alto! Um exemplo disso, está justamente na área mais básica dos relacionamentos humanos, afetivos ou não. 

A busca por bons parceiros é algo que está presente desde os primórdios da existência humana e logo na infância, já formamos grupinhos. Algo que com o tempo termina evoluindo para tribos maiores.  E assim, temos círculos dentro de círculos de interação humana.

Mas nem sempre temos como escolher as pessoas com quem vamos nos relacionar, como família, escola, trabalho etc. Nesses casos aprendemos sobre o exercício da tolerância e da diplomacia. A vantagem dessas situações é que vamos aprendendo, a partir dos nossos erros e acertos, a escolher melhor quem vai ou não ficar perto de nós.

Se escolher uma pessoa para ser amigo, sócio ou parceiro baunilha já não é algo fácil, imagina um que será soberano da sua vida...

Voltando a questão da natureza Dominante e/ou submissa, não existe motivo para que deixe de ser (ou de viver a sua natureza) submissa. Você até pode colocar isso em estado de hibernação temporária para sofrer um pouco menos durante o processo de busca pelo parceiro certo, mas creio que seja um erro grave a tentativa de deixar de ser o que se é de fato. 

Os livros fazem tudo parecer lindo e muito mais fácil do que realmente é. Na verdade, eles nos dão uma "realidade" que não é a nossa... realidade é aquela que já vivemos e as pessoas mais inteligentes não compram livros ou vão ao cinema para ver histórias comuns. De comum, já basta o dia a dia que nos é enfiado goela abaixo pelo mundo que nos cerca.

A vida não é linda... tampouco feia...  ela “é o que é”. O que  fazemos a respeito disso é o que nos transforma em protagonistas (ou não) de uma história de vida que pode virar um livro, um filme ou uma lenda... Ainda assim, podemos escolher nos satisfazer apenas com a nossa imaginação, turbinada pelas histórias de outras pessoas...

Estes livros fazem o bom serviço de mostrar aos leitores que existe algo além da realidade que estão vivendo no momento. Eles servem de inspiração para as fantasias anestésicas dos seres comuns e para os incomuns, um objetivo a ser alcançado. Objetivo esse, que não é um pote de ouro no fim de um lindo arco-íris. 

O que se encontra além desse horizonte não é algo bom ou ruim, fácil ou difícil, lindo ou feio. O que importa é encontramos a nossa verdadeira natureza e viver plenamente isso é o cálice sagrado dessa aventura.

Em primeiro lugar, recomendo que busque bons parceiros para suas atividades BDSM. Lembrando sempre que BDSM não é baseado em sexo e sim, em hierarquia. As chances são boas de encontrar pequenos grupos para viver a sua subserviência dentro dos seus limites pré-estabelecidos. Com a convivência, suas chances de encontrar um parceiro fixo dentro desse grupo aumentarão, pois terá a oportunidade de ver alguns Soberanos em ação e até mesmo, experimentar o processo com alguns deles.

Enfim, na minha opinião, fica muito difícil brincar apenas no carrossel depois de conhecer e experimentar a Montanha Russa do parque de diversões. O que poucos percebem é que existe um meio termo, pois o parque não é formado apenas de brinquedos "suaves e radicais" para adultos. Existe uma gama de possibilidades intermediárias e você pode muito bem se divertir nelas, enquanto a "Montanha Russa" da sua vida não aparece.


GLADIUS MAXIMUS

7 comentários:

  1. Bem... Espero que quem fez a pergunta ao Gladius esteja lendo aqui.
    Como disse o própio, a natureza fala mais alto. Por mais que você esteja sem dono, uma hora os sintomas começam a se manifestar. Por experiência própria, você suprime suas características submissas por tanto tempo que, a impressão que tive, é que ela se revoltam contra você.
    Não tenha receio do papel da submissa. Não tenha medo de quem você é. Sei que todos passamos pelo árduo período da aceitação e também compreendo que se entregar plenamente requer muito de nos mesmo e, principalmente, do outro. Este outro que, num mundo de imperfeições está, de acordo com nossa visão, capacitado para possuir o bem mais precioso de todos: a nós mesmos. Quando você diz não ser digna ou forte o suficiente, acredite, todos pensamos isso de vez em quando, a diferença é que, no decorrer da jornada, você irá fazer de tudo para não macular a imagem de seu dono. A vontade de ser melhor para ele, de ser o espelho de seus ensinamentos irá te fazer mover montanhas.
    Acredito que o arco-íris realmente exista mas está a anos luz da maioria dos fenômenos literários. O arco-íris está no colorido das marcas que seu dono deixa em você. A magia do pote de ouro está na satisfação de seu dono, está em sentar no outro dia e sentir aquela quenturinha que vai te lembrar que você é dele, está em saber que quando você acha que não vai aguenta mais, sente um carinho no lugar exato e ouve um "você está bem minha menina?", então você vira o Atlas e sustenta o mundo. No fim, ouve que ele tem muito orgulho de você se sente o ser mais especial do universo. Assim, quando achar que deve abraçar os prazeres e dores da submissão, vai descobrir que não precisa abraçar nada. Você é o próprio prazer, a própria dor, a própria submissão. Como viver depois de conhecer o paraíso? Adão e Eva foram expulsos de lá e povoaram o mundo! Analogias religiosas a parte, o empoderamento que consegui aceitando minha submissão me faz seguir em frente com ou sem dono, mas quando tenho oportunidade faço como Adão e Eva... aproveito! Assim, quando te perguntarem se você quer ser submissa vai responder: já o sou e tenho orgulho de quem me tornei o sendo. Grande abraço e espero que se encontre.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo10.5.16

    Primeiramente gostaria de agradecer imensamente a atenção recebida. E pedir desculpas pela demora em agradecer, essa gripe "maravilhosa" me pegou achou que podia virar minha amiga permanente, mas agora ela entendeu que nossa amizade era passageira.

    Fiquei total e completamente emocionada pela resposta, não sei ao certo que palavras podem expressar tal sentimento. É uma honra poder receber uma resposta do Sr. (com sua licença por chama-lo assim), e ainda mais ter meus questionamentos explanados em seu blog que tem grande credibilidade e abrangência.

    A resposta veio na hora certa, quando tinha que vir e é de grande valia a minha pessoa.

    Sim, o sentimento de frustração se instalou em minha mim por determinado momento e me senti perdida, como alguém que não sabe nadar, entra no mar e desespera-se ao se ver sozinho afogando-se no mar tempestuoso.

    A vida nos presenteia com escolhas, e cabe a nós escolhermos ser quem somos, quem queremos ser ou se vamos nos esconder, e como brilhantemente explanou se nos escondemos, bem como os aspectos de nossa verdadeira natureza debaixo do tapete cria-se o calombo nesse mesmo tapete que mais cedo ou mais tarde nos derruba seja por um tropeçam, ou por nossa incapacidade de vestir a máscara de hipocrisia e fingir uma falsa realização e felicidade.

    O caminho invariavelmente será difícil, mas creio que nas dificuldades amaduremos, aprendemos com nossos erros e construímos quem somos.

    Não tenho palavras para agradecer, em um mundo onde as pessoas não tem tempo de escutar umas as outras e muitas das vezes só pensam em si, ter atenção de Vossa pessoa é um bálsamo em minhas dores e feridas, tempo é algo importantíssimo sei que tem suas responsabilidades, posses e uma vida para viver, em vez de ler lamúrias de estranhos. Obrigada por tudo.

    Infelizmente sei que algumas pessoas que não tem a capacidade de conquistar sua felicidade e passam a julgar quem tem essa capacidade. Espalham amargura, despeito entre outros sentimentos negativos como o "sem noção", acredito que isso não lhe abale em absoluto e nem tem o porquê. Diversos amigos, Dominadores, submissos entre outras pessoas lhe apoiam incondicionalmente, portanto minhas palavras não devem servir de muita coisa. Queria apenas frisar a importância que tem para diversas pessoas como eu, que estão na busca de autoconhecimento assim como, conhecer um mundo onde não somos julgados por ser quem somos, e podemos ser quem somos. E o Sr. ajuda na descoberta desse mundo.

    E antes que esqueça algo de suma importância, que tenha muita inspiração na escrita de seu livro e que o quanto antes possamos nos deliciar com seus escritos.

    Desculpe-me se me delonguei, desde já agradeço a atenção.

    Muitíssimo obrigada.

    ResponderExcluir
  3. Sinta... viva se tiver a possibilidade... entregue-se!
    Não há nada mais prazeroso do que ser o objeto de prazer de seu Dono e ter a honra de ver esse prazer em seus rosto, gestos e atitudes.
    Sr. Gladius mais uma vez nos encantando com suas palavras... viva sua natureza, pois ela falará mais alto quando você menos esperar!
    Bjos

    ResponderExcluir
  4. Estou neste período que não quero deixar minha submissão morna...então resolvi fazer uma play

    ResponderExcluir
  5. Anônimo20.12.16

    Hoje esse texto me trouxe a amargura da solidão, não sei o que dói mais a ausência do meu Dom, ou não saber o porquê dela. Nos falamos quase todos os dias e quando não vai dar ele me avisa, hoje isso não Aconteceu, coração em pedaços, a noite será longa.

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.