Choque de realidade II: quando o parceiro supera nossas expectativas



No texto “Choque de realidade no BDSM”, deixei de explorar o viés que será apresentado agora, por ser algo que merecia uma análise isolada e mais profunda, e me concentrei na faixa de ocorrências que se enquadram nos casos de "não era bem isso que eu esperava": 

  • a decepção pela falta: quando as expectativas são grandes e o que se encontra não é "lá essas coisas";
  • a decepção pelo engano completo: quando o que se encontra é outra coisa, que pode ser apenas diferente ou bem pior.

Mas faltou dizer o que acontece do outro lado do gráfico: quando se acha mais do que procurava.

É tudo de bom quando se deseja muito algo e esse "algo" acaba superando nossas expectativas. Porém, no BDSM, por mais incrível que possa parecer, as coisas podem dar “muito errado” quando as expectativas são superadas... e é o que pretendo analisar aqui.

Tal situação é menos frequente que a “decepção pela falta ou pelo engano completo”, mas não deve ser ignorada, pois seus efeitos colaterais podem ser ainda mais decepcionantes. E isso acontece, justamente, na escolha do parceiro, que é na minha opinião a maior dificuldade dentro do BDSM… ou melhor, em toda a nossa vida no que tange às relações afetivas e profissionais.

Acontece assim...

O indivíduo tem uma vida tranquila e equilibrada em todas as áreas, menos nos relacionamentos… O sexo vai mal... falta alguma coisa... e através de filmes, livros e amigos, descobre o universo BDSM. Um lugar onde pode viver de acordo com sua natureza submissa ou Dominante (ou as duas, no caso dos switchers).

Na verdade, só falta isso: colocar para fora algo que está preso e sufocado. 

De resto, não quer que mais nada mude. E esse tal "não quero que nada mude" tem a ver com alguns fatores, entre eles, o fato de se viver um casamento (ou namoro) estável, do qual a pessoa não quer se desfazer, seja lá por qual motivo for.

E logo em suas primeiras pesquisas sobre o mundo BDSM, percebe que através dos fundamentos do S.S.C. (Sanidade, Segurança e Consensualidade) pode ter a chance de encontrar um parceiro para viver a sua natureza de forma plena, sem que tenha outros aspectos da sua vida afetados… entre eles, o seu relacionamento baunilha. Aí, entra de cabeça numa busca desenfreada por esse parceiro.

Só que agora, vou pular algumas etapas...

  • Os casos em que poderia encontrar todo tipo de “sem noção”, parasita, doente ou criminoso pelo caminho;
  • Os casos em que poderia encontrar um parceiro tecnicamente perfeito, reunindo o “básico” para que tudo dê certo (reputação, atitude, experiência e conhecimento), mas que no fim, a coisa não funciona simplesmente pela incompatibilidade entre as partes.
  • Os casos em que poderia encontrar seu oposto complementar perfeito e absolutamente dentro das expectativas, certeza de um "felizes para sempre, eterno enquanto dure".

Quero falar aqui apenas daquela situação onde o parceiro venha a superar (às vezes, de longe) a tudo que a pessoa estava buscando naquele momento. Esse tipo de descoberta não ocorre ao mesmo tempo em que se percebe que esse é o parceiro perfeito dentro das expectativas iniciais. Isso só vem à tona depois...

E tal como acontece no choque negativo, quando o parceiro se revela “bem menos” do que aparentava, o indivíduo é surpreendido só que de uma forma bem mais difícil de se lidar. Quando o parceiro é "menos", sofremos, porém é mais fácil sair da relação. Mas quando é "mais", os sentimentos são elevados para um patamar em que desatar esse “nó” já não é tão fácil.

O motivo? Simples… um dilema de valores é criado.

Diante dessa criatura, os valores do indivíduo são realinhados e o que tem em seu relacionamento baunilha, que antes poderia ser minimamente aceitável, passa a ter uma nota extraordinariamente baixa. E o primeiro impulso é tentar trazer essa pessoa para participar de todos os aspectos de sua vida, fazendo com que a relação comece a transgredir os limites do BDSM.

E isso é ruim? Não... e nem bom... apenas é o que é. 

Isso só é um problema para quem não tem os seus valores restritos à própria realidade, o que os leva a tentar impor constantemente tais valores dentro da relação... E também, para os que não têm razões bem definidas para o seu movimento de transição do baunilha para o BDSM.

O que fazer, então?

O melhor é estabelecer o que NÃO fazer, pois o que fazer é simples.

  • Não se deve ir com “muita sede ao pote”, já imaginando que a pessoa se transformará em um parceiro de vida. Afinal de contas, existe uma chance bem razoável de que a descoberta de uma pessoa "a mais" possa valer apenas para o indivíduo, ou seja, o outro não deseja ter o mesmo nível de relação que ele almeja. Principalmente, no caso de Dominadores (meninos ou meninas) que já possuem outros relacionamentos BDSM;
  • Não se deve tentar “curar” a pessoa das suas tendências BDSM. Ou seja, aqueles casos em que ela vive o BDSM e tudo não não passa de fantasia e fetiche para o indivíduo. Nessa situação, pelo ponto de vista dela, ele é que precisa "ser curado";
  • Não se deve tentar acelerar processos… Numa relação BDSM, quando se coloca “o carro na frente dos bois”, as chances de dar tudo errado são grandes, já que é fundamentada em hierarquia, autoridade e confiança, coisas que levam tempo para serem consolidadas.

No fim, é tudo uma grande coisa só...


Depois de buscar por respostas cada vez mais longe, percebi que tudo era bem mais simples e estava bem diante dos meus olhos.

O mundo baunilha e universo BDSM não existem como lugares físicos, para “onde se possa ir” e “de onde se possa vir”. São dimensões que ocorrem apenas no âmbito das relações afetivas e com fronteiras não muito bem definidas entre si.

De físico mesmo, só o mundo em que vivemos e extraindo-se toda a perfumaria, condimentos e uma boa parcela de gordura, o que resta é vida. Nem boa... nem ruim... apenas vida.

O que nos resta é fazer o melhor e caprichar nos capítulos enquanto estivermos por aqui, pois já sabemos que a história, como um todo, termina num final que também não é nem bom, nem ruim... termina bem no fim.

Devemos apenas seguir o fluxo, deixando que as coisas que têm que acontecer, aconteçam… naturalmente, no seu ritmo. E acima de tudo, expandir a nossa capacidade de percepção, para que possamos aproveitar tudo que esse “encontro” possa nos oferecer enquanto durar. 


GLADIUS MAXIMUS


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