12.4.17

O peso da palavra Dono

Dono, dominador, dominante, submissa, submissos, posse, relacionamento, bdsm, baunilha

Existem muitas maneiras da parte submissa tratar o Dominante com quem interage: Senhor, Mestre, Master... às vezes, com o pronome possessivo "meu". Às vezes, seguido de um "de mim" por exigência de alguns Dominantes. 

No entanto, a forma mais comum no meio BDSM é Dono… Mas será que as pessoas sabem exatamente qual o peso e a importância dessa palavra?

Antes de prosseguir, cabe ressaltar que utilizo o termo “Dono” nesse texto para ambos os gêneros… onde se lê Dono, entenda como Dono/Dona. 

Contextualizando...

Sabemos que a pessoas ficam próximas basicamente por terem afinidades e interesses comuns. Depois, algum tipo de "magia" acontece... e a vontade de ficar perto só aumenta. Isso pode parar na amizade ou ir além... 

E nesse “além” dentro do Mundo Baunilha, se fica, se separa, se namora, se noiva, se separa, se casa (ou se junta), se separa, se torna amante, se separa... Até que, em algum momento desse ciclo (que obviamente pode parar num "até que a morte os separe"), a pessoa sente que precisa de mais e acaba seguindo a sua natureza submissa ou Dominante, despertando para o Universo BDSM.

Universo descoberto, a coisa tende a complicar… pois quem chega geralmente tem dificuldades para entender a real natureza dos relacionamentos baseados em hierarquia. Nesse ponto é normal “confundir as coisas”, já que determinados valores do Mundo Baunilha não cabem ou não encontram correspondência no BDSM. 

Nessa região de entrada do Universo BDSM habitam diversos tipos de pessoas, desde aquelas sem uma noção completa de como tudo funciona até um sem número de criaturas. Algumas perigosas... que se aproveitam da inexperiência e vontade de viver tudo isso de incautos iniciantes.

No BDSM, as relações são de Dominador/dominado e Possuidor/posse, sendo que as primeiras corresponderiam em termos de “comprometimento e confiança” (e não de conceito... ok?) aos vários tipos de relacionamentos existentes no Mundo Baunilha, exceto o casamento/união estável. 

Este último nível de relacionamento corresponderia à relação de Possuidor/posse. E na minha opinião, somente neste caso caberia a parte submissa chamar o seu Dominante de Dono/Dona. Mas não é bem isso que acontece...

Filmes, livros e às vezes o exemplo de amigos, fazem pessoas cansadas da sua vida atual se voltarem para o BDSM. Muitas delas, movidas por uma sede enorme, acabam se precipitando e pulam algumas etapas básicas e essenciais desse e de outros processos. 

São deixadas de lado coisas como pesquisar sobre o novo lugar para onde pretendem ir, travar contato com "moradores" locais, para que com eles possam aprender sobre os hábitos e as dinâmicas dos relacionamentos e pior... esquecem do bom senso antes de cada decisão.

Aí, com a pressa que cega, acabam por “enfiar os pés pelas mãos” e entram em relações que não entendem por completo, em muitos casos, com as já citadas criaturas perigosas. Entre estas, os pseudo dominantes, que diante da total incapacidade de manter parceiros experientes, caçam suas vítimas entre os novatos. Além de pessoas atrás de sexo fácil e outros que buscam no BDSM uma fuga para os mais diversos tipos de problemas.

Neste ponto, esquecem de algo muito importante no que tange às relações afetivas: a ordem lógica e natural dos acontecimentos. Ou seja, esquecem que ninguém casa (ou não deveria…) com alguém que acabou de conhecer e muito menos, com alguém que só conhece virtualmente.

E sobram no meio BDSM pessoas que se posicionam como posse ou propriedade de alguém, sem qualquer tipo de interação (real) com esta. Sem contar as que acabaram de conhecer o “Dono” e não fazem a menor ideia do que isso realmente significa. 

Então, vamos ao significado...

Como citado acima, todas as relações afetivas, desde uma simples amizade, são iniciadas a partir de afinidades e interesses em comum.

Ao contrário das relações do Mundo Baunilha, onde a parceria é baseada em afinidades sexo e aparências, as relações no BDSM são fundamentadas em hierarquia. Consequentemente, no fluxo do poder doado pela parte que se submete ao seu Dominante, que escolhe como e quando exercê-lo. 

Dessa forma, o relacionamento pode "estar BDSM” ou "ser BDSM”. O "estar" é quando, por exemplo, um casal insere dentro da sua relação baunilha o processo de fluxo de poder (de forma eventual) e o "ser" é quando a relação BDSM é o formato único adotado pelas partes. 

E é só neste caso, quando o BDSM é o único formato, que ele se divide em relações de Dominador/dominado e Possuidor/posse, ponto para o qual, tudo o que falei até agora converge. O que poucos se dão conta é que as primeiras são as mais comuns, enquanto as últimas são muito mais difíceis de se encontrar. 

Isso ocorre, porque a relação de poder é definida pela parte que se submete, uma vez que a parte que domina só existe na relação, quando exerce o poder que lhe é conferido pelo parceiro. Poder que pode ser dado... e retirado. E que na prática, é regulado em volume e liberado conforme o Dominante demonstra o seu valor (bom, deveria ser assim…). 

O exercício desse poder pode ser eventual ou contínuo e ocorrer sobre algumas ou todas as áreas da vida do submisso. Neste caso, teríamos o chamado “TPE - Total Power Exchange”, ou seja, ele entrega para o Dominante todo o poder que tem sobre si. Extremo este, onde o uso da palavra “Dono” faria sentido.

O que falta agora é definir esse limiar onde o seu uso se justifica. Os puristas definiriam que o Dono de verdade é aquele que faz parte de uma relação 24/7. Ou seja, ele é servido “24 horas por dia e 7 dias por semana”. E para que isso aconteça, existe a leitura de que basta que a parte submissa não tenha outro tipo de relação afetiva e que esta seja contínua. 

Por outro lado, existe também a corrente que acredita que para ser 24/7 é necessário a convivência diária, sob o mesmo teto, para que o submisso possa efetivamente entregar todo o poder sobre si (TPE), vivendo em função do seu Dominante. 

Considerando tais correntes, o que realmente importa para mim é o tempo de convivência, a dedicação da escrava e seu nível de entrega. Me considero Dono de quem me serve ou está à minha disposição 24/7, que me entrega o poder sobre sua vida (que eu escolho como, quando e onde exercer) e que tem em mim a sua única relação afetiva (exceto, se for uma posse switcher, que poderá ter outras relações enquanto Dominante), independente se vive ou não comigo. 

Logo, só considero uma escrava como uma posse, quando todas essas condições estão alinhadas, pois é nesse momento que o relacionamento de fato se consolida. Tal como acontece na evolução das relações afetivas no Mundo Baunilha, quando as partes passam a se tratar por marido e mulher/companheiro e companheira.

Todo o resto, que ocorre desse limiar para baixo, seriam relações entre play partners, entre Dominador e dominado, que dependendo do nível “de comprometimento e confiança” entre as partes, poderiam ser comparadas às relações entre “ficantes” ou namorados no Mundo Baunilha. 

Nesses casos, o poder é doado de forma pontual, por períodos de tempo claramente definidos, sem a entrega de poder sobre determinadas áreas da vida de quem se submete e sem a obrigatoriedade desta ter a parte que domina como sua única relação afetiva.

Enfim, não se pode dizer que há um grande problema em chamar de “Dono”, sem que isso seja carregado de verdade, se aquele que recebe não se importa se é algo real ou não… Afinal, quantos “eu te amo” não são ditos de forma vazia. 

Não se pode impedir ninguém de falar o que desejar, quando desejar… Mas o que realmente define a pessoa e o que sente, muito mais do que suas palavras, é o seu comportamento. 

Se é uma pessoa que, por exemplo, não se alimenta de hierarquia, de ritos (sejam lá quais forem) e não valoriza verdades simples como o uso da palavra "Dono", com a seriedade que merece, para mim é um partidário das relações de fetiche, onde quase tudo é permitido.

E não há nenhum problema nisso… a camada caótica dos fetiches existe justamente para acomodar a existência de um sem número de possibilidades inviáveis em outros universos.

Concluindo...

Meu principal objetivo com esse texto não foi criticar ou mostrar que este ou aquele tipo de tratamento é o melhor ou mais adequado e sim, chamar a atenção para os riscos a que uma pessoa se expõe, quando “se joga” em uma relação de posse, sem saber o que realmente isso significa. 

Por outro lado, é também uma tentativa de valorizar um dos poucos “rótulos” que vivo dentro do BDSM, sem contar o fato que já estou cansado de ouvir que o Dominante X ou submisso Y fez isso ou aquilo de ruim ao interagir com seus parceiros… Me desculpe, deixe-me corrigi-lo... esses são PSEUDOS dominantes ou submissos. 

Enfim, o que eu desejo? 

Que as palavras acima sejam motivo de orgulho, para quem as ostenta com seriedade e merecimento. Que a palavra “Dono” seja utilizada pela parte submissa, quando de fato sentir que pertence por completo. 


GLADIUS MAXIMUS

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2 comentários:

  1. Foi demasiado instrutivo.

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  2. Ótimo texto, achei só que a parte do "Ser ou Estar BDSM" faltou mais um pouco de aprofundamento na explicação, mas o texto em sí está maravilhoso e muito instrutivo.

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