Fabricando parceiros: mostrei o BDSM... e agora?


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Sabemos que fabricar um parceiro dentro do BDSM é algo que não funciona, já que a busca pela própria natureza é uma jornada solitária. Portanto, a atitude mais sensata é apresentar esse universo e deixar que ele faça suas escolhas.

Isso é válido tanto para amigos quanto para parceiros em relações afetivas. A importância da liberdade de escolha é essencial para que não haja a contaminação no processo por coisas como: "vou fazer isso por você". Ou, no outro extremo, "não posso fazer isso por medo de te ferir".

Ainda mais relevante é o fato de que o BDSM é fundamentado em hierarquia, que seria frontalmente abalada, caso a parte submissa da relação se tornasse “mestre” da parte dominante.

O que faltou discutir em outros textos foi o que fazer depois que a informação é passada e como lidar com as eventuais reações do parceiro.

ISTO POSTO, VAMOS LÁ...


Pela sua própria complexidade, seres humanos poderiam ter as mais variadas reações, mas uma vida observando atentamente atitudes e comportamentos mostram que algumas são mais comuns.

Duas delas, citadas acima, ocorrem quando o parceiro não é naturalmente o oposto complementar para uma relação BDSM. Então, por amor ou seja lá o que for, ele entra (ou não) no jogo.

O parceiro pode declinar com medo de que, de alguma forma, possa causar um dano físico ou por outro lado, entrar no jogo para agradar. Obviamente, declinar seria a atitude correta, uma vez que, corromper a própria natureza para agradar o outro, não deveria ser uma escolha... Não importa o tipo de relacionamento ou posição dentro dele.

O outro grupo de reações ocorre justamente quando o parceiro tem "jeito para a coisa", ou seja, possui potencial para se tornar um habitante do universo BDSM.

Mas antes de entrar nessa área é bom lembrar que todos nascemos em um meio social que nos pressiona e acaba nos obrigando a construir personagens específicos, destinados a atender às expectativas dos que nos cercam. A parte de nós que é suprimida ou ignorada nesse processo é a natureza primal, onde se situam os prazeres ligados diretamente ao que somos de verdade.

Quando se mostra algo novo para alguém, corre-se o risco de que essa novidade transforme-se em um gatilho, que pode disparar uma série de reações internas. Aí é como abrir uma “caixa de pandora” (artefato grego, que continha todos os males do mundo e que popularmente, simboliza qualquer coisa que provoca curiosidade, mas que não devemos tocar ou chegar perto), o que poderá levar à consequências indesejadas.  

Tais reações dependerão de muitos fatores, pois nesse caldeirão encontraremos a natureza primal suprimida somada a todos os anseios da pessoa.


CAIXA DE PANDORA ABERTA... 

O PARCEIRO MOSTROU INTERESSE


Como já discutimos, as posições no universo BDSM são definidas em dois tipos de comportamento: Dominante e submisso (para quem vive ou apenas pratica BDSM). Logo,  as opções de combinações são limitadas.

Dentro desse universo, existe uma variante, que é o switcher:  indivíduo que se completa tanto dominando quanto se submetendo, dependendo do parceiro (se ele é submisso ou dominante). Quando essa alternância de posição ocorrer com o mesmo parceiro, teremos uma relação de fetiche (e não BDSM), já que o fundamento da hierarquia seria quebrado. 

Essas considerações iniciais são importantes, porque pode ser um switcher a apresentar esse “novo mundo” para o parceiro ou este pode ser um switcher em potencial. Tanto num caso, quanto no outro, vamos considerar que este switcher venha a assumir posição oposta a do seu parceiro.

1. Quando as duas partes são dominantes ou submissas:

O cuidado aqui é não permitir que a pessoa, gostando da mesma coisa que você, acabe indo contra a própria natureza apenas para lhe agradar. Escolha que incorreria no já citado erro do "vou fazer isso por você". Se os dois são dominantes (puros e não switchers) ou submissos não há como se construir uma relação hierárquica, que é a base de um relacionamento BDSM.

2. Quando quem apresenta o universo BDSM é a parte dominante

Nesse caso fica bem mais fácil, principalmente se o top for experiente. Uma vez que cuidar, ensinar e guiar já fazem parte da sua rotina. Se for um top iniciante, o processo poderá ser bem mais complicado em função da falta de conhecimento e experiência no uso do poder que conquistou.

3. Quando quem apresenta o universo BDSM é a parte submissa:

É o cenário mais complicado, pois nesta combinação o risco de surpresas indesejáveis é maior, principalmente se a parte submissa é iniciante.

A complicação advém da questão hierárquica, já que quem se submete não pode se colocar como “mentor” sem ferir o fluxo do poder. Como se submeter, dando poder a alguém, se esta pessoa sabe menos do que você? Não faz sentido, não é mesmo?

E o foco a partir de agora é justamente nesta combinação que é a mais complicada.


OK, ELE TEM POTENCIAL DOMINANTE... 


É neste exato ponto, onde o parceiro fica realmente interessado, que a tal “caixa de pandora” é aberta.

Um exemplo disso foi o de uma amiga submissa, que já em estágio avançado de sua transição, resolveu apresentar o BDSM para o marido (uma relação de 15 anos).

Ela se surpreendeu com a sua imensa receptividade... e mais ainda, com o seu tom autoritário.  Nesse processo, ele chegou a pressioná-la para que providenciasse outra serva (irmã de coleira) para servi-lo. E de repente, tudo o que ele tinha reprimido, inclusive o tesão pela irmã dela, aflorou e tirou o chão da nossa heroína.

De uma tacada só, nosso “top iniciante” percebeu o quanto havia deixado de viver e queria tudo de uma vez, indo com muita sede em um pote muito frágil… o momento que o casamento deles atravessava.

Quando essa descoberta ocorre, seja em relação ao que está além do horizonte ou sobre o que desconhecia acerca de si mesmo, é um momento crítico, na medida em que é muita coisa para um simples ser humano lidar da noite para o dia.
Voltando ao exemplo, o casal não se conhecia de fato. Cada um conhecia apenas uma parte do outro: o personagem criado para satisfazer as suas expectativas e da sociedade. No momento que ela apresenta o tal “mundo novo” e a sua natureza, o que se escondia atrás do "personagem" criado por ele era algo que ela não esperava...
E você, quanto de fato conhece do seu parceiro? Está disposto a descobrir a sua real natureza? Está consciente de que ao abrir esse universo poderá enfrentar situações que não conseguirá nem mesmo tolerar em relação ao comportamento dele ou dela?

Enfim, da “caixa de pandora” que ela abriu, emergiu não apenas um potencial dominante, mas um homem com muitos desejos reprimidos, que não tinha ainda condições de receber e lidar com o poder entregue de forma precipitada e imatura por sua parceira. Isto é, na falta de conhecimento, experiência e bom senso, ele ultrapassou vários limites, enfiando “os pés pelas mãos”.


CASO RARO? INFELIZMENTE NÃO...


De certa forma, ela conseguiu se sair bem da situação, mantendo o mínimo de controle sobre si mesmo e o bom senso ao dar uma “enquadrada” nele.  

Nós tivemos uma boa conversa e a solução foi simples: a esposa permaneceria acessível, inclusive em relação ao sexo (apimentado ou não), mas a submissa, ele teria que conquistar. A submissão que tanto desejava teria que ser merecida. Ele teria que buscar informações e conhecimento, trilhar sua própria jornada e só depois, tê-la como sua submissa.

Mas por tudo que já vi nesta vida, ela deu sorte. Dessa “caixa de pandora” poderiam ter emergido situações incompatíveis com a submissão dela (incompatibilidade de naturezas ou relações hierárquicas) ou mesmo, “facetas humanas” que podem ser enquadradas no campo da psicopatologia.

No fim, suas atitudes colocaram em grande risco a relação, mas era um movimento necessário. O casamento já havia passado do “prazo de validade”, enquanto fundamentado na união pura e simples dos “personagens”. Ele vinha estável com a rotina, ela não. E então, foi arremessada numa transição de onde emergiu a submissa.

Ela mudou, ele não. Fato que sentenciou à morte a relação deles tal como era. Disso tudo, ela conseguiu extrair a energia para um movimento corajoso, que julguei absolutamente vital. Ela não apenas apresentou o universo BDSM ao marido, mas decidiu arcar com as consequências.

Quando conversamos sobre as consequências da sua decisão, limitado no que poderia sugerir, meditei muito sobre as alternativas, o que acabou resultando na “enquadrada” acima.

Depois de me debruçar sobre este caso, inclusive revendo tudo o que já havia analisado e escrito sobre o assunto, percebi que só tinha trabalhado na ideia da prevenção, faltando definir o que fazer depois.

A atitude preventiva, que serve para todas as situações citadas, é simplesmente apresentar esse novo horizonte de possibilidades e colocar de forma bem clara o que se é, além das expectativas sobre o todo, cabendo ao parceiro decidir se aceita ou declina do “convite”.

É bom lembrar que essa atitude termina sendo vital, quando a parte que apresenta é submissa. Pois fica difícil construir uma relação de dominação/submissão, baseada em hierarquia, quando a parte submissa se coloca na posição de “mentora”.
Cabe ao dominante trilhar o caminho por conta própria. A decisão é dele. A busca é dele e não da parte submissa, que obviamente, terá a sua jornada pessoal dentro da relação.
Quando o parceiro rompe o casulo, só cabe a parte que apresentou o universo BDSM aceitar o que sair da “caixa”. Lembrando que, seja o que for, é ele de verdade.


MAS NÃO GOSTEI DO QUE SAIU DA CAIXA... 


Paciência, seu parceiro será mais feliz podendo viver de forma plena a sua natureza. É bom para ele, para você e para um relacionamento maduro e saudável. No entanto, se o que sair for intolerável, não preciso dizer o que você deve fazer…

Apenas pense: se você está numa cadeira que tem um prego bem no assento que não consegue remover, simplesmente mudamos de cadeira, pois se acostumar com o prego não é uma opção.

Bom, então terei que me separar do meu parceiro?

Não necessariamente, tudo na vida é uma questão de escolhas… e as melhores nem sempre são as mais extremas.

Vocês poderão optar por um relacionamento “baunilha apimentado”, ou seja, a intensidade pode ser vivida de forma moderada na camada dos fetiches. Ambiente sem a rigidez da hierarquia, onde todas as práticas podem ser saboreadas sem as partes exercerem autoridade uma sobre a outra.

Será que isso vai levar a plenitude? Não, não vai. Mas nem todo mundo quer ou consegue viver um relacionamento BDSM (e tudo bem), pois um parceiro compatível se faz necessário. 

Resumindo...

Se o Dominante é iniciante e inexperiente, não entregue sua submissão “de bandeja”. Aliás, valorize-se sempre. E isso é válido para qualquer tipo de relação ou posição dentro dela. Foi o conselho que dei à minha amiga e que ela colocou em ação.
Ou seja, é um “mecanismo simples”: você pode construir laços de amizade, amor e respeito, mas confiança e autoridade são conquistadas. Um processo que não é fácil e precisa ser contínuo, sob pena do poder “subir à cabeça” e destruir a relação hierárquica BDSM.

Logo, dentro uma relação BDSM, basta que a parte submissa regule o poder que manterá sobre si e que entregará à parte dominante. Esta receberá o poder de acordo com a sua evolução e capacidade de lidar com ele.


CONCLUSÃO


Há uma chance bem razoável de que este "novo" parceiro não venha a ser compatível com o "novo" você, o que poderá levar à ruptura da relação… no mínimo, do jeito que era. Por mais que isso possa parecer difícil, termina sendo algo muito bom, pois cessa com a relação entre “personagens”.

Se a relação sobreviver, ainda que de outra forma, serão duas pessoas interagindo com suas naturezas completas e não um relacionamento construído para atender às expectativas do outro. Fadado, mais cedo ou mais tarde, ao colapso…

E colapsar não é pior coisa que pode acontecer... O pior é quando a relação se arrasta apenas para manter as aparências.

O melhor mesmo é viver a relação (seja ela de que tipo for) com a leveza da verdade... e no meu caso e de outras pessoas, ela fica ainda melhor com poder e hierarquia.


GLADIUS MAXIMUS


Veja também:

Relações BDSM - Fabricando o parceiro



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